quinta-feira, dezembro 04, 2003

Eneade de Heliópolis

Na Eneada Heliopolitana se encontra toda a elaboração de uma Criação intelectualizada, todo um misticismo voltado para os fenômenos físicos e cósmicos, e certamente, a verdadeira teologia oficial do Império, que nunca foi totalmente eclipsada pelas outras doutrinas, e cuja origem se perde na antiguidade dos tempos prédinásticos.
Essa teologia é eminentemente cósmica e solar, tendo contribuído com sua influência as idéias renovadoras e a própria revolução político - religiosa do faraó Akhenaton.
Assim descrevia a Doutrina Heliopolitana a formação do universo, e sua analogia com a Gênesis bíblica demonstra claramente que os hebreus nela beberam a essência de sua religião:
No inicio nada havia, nada existia. Tudo era trevas e escuridão. No entanto, todas as coisas estavam criadas, mas nada tinha forma e nem se tomava conhecimento umas das outras, pois não havia como distinguí-las e não existia luz. Tudo estava pois confundido, latente, em estado de inércia. Nesse abismo cósmico onde o germe potencial de tudo ocultava-se latente, uma força se movia, informe, sozinha. 0 egípcio chamava a esse cáos de NUN, ou "nada", o Vazio, as "águas abissais". Esse NUN simbolizava a pró-matéria, o elemento primeiro, onde tudo estava atirado e confundido, desordenadamente, em estado de inércia.
Contudo, nesse "nada", ATOM ( ou TEM, TWM, TOMW ), o " Deus que se fez à si mesmo", desejoso de manifestar-se, emergiu do NUN em seu primeiro desdobramento. Colocando-se acima das águas, fez emergir a Colina Primordial, ordenando os elementos e chamando à si a Luz, através de uma formidável explosão, e surgiu RA, o Sol. ATOM é o universo em abstração, RA é a realidade visível desse universo. ATOM-RA é o Grande Demiurgo, do qual irá originar-se o Cosmos. Os textos explicam que ATOM era informe, macho e fêmea, abrigando em si os dois princípios opostos e que seriam separados no ato da Criação.
Assim, ATOM-RA são Dois em Um. Atom é a emissão do Verbo e Rá, sua realização. Atom é chamado nos textos egípcios de "Aquele dos Milhões de Anos" e corresponde ao AIN-SOFH, ou o "Antigo de Dias" da Cabala Hebraica. Rá é a sua manifestação na Luz, cujo símbolo visível é o sol físico. Atom-RA poderia ser interpretado, mais ou menos, como "o Princípio Imanifesto manifestado na Luz". Uma vez criada a Luz, os elementos primordiais se organizam. Rá, o Sol ("Aquele que viu a realização do seu Verbo"), irá originar dois casais divinos: Shu e Tefnut.
Assim, a Eneada Heliopolitana não só explicava a Gênese, como também trazia um ensinamento profundamente espiritual. 0 Princípio Uno se desdobrava, do macro ao micro, sua síntese, preconizando o que mais tarde seria dito por outras religiões: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus.
Os textos dos sarcófagos, nos ensinam que Atom- Rá diz: "Eu sou Um tornado dois, eu sou dois tornado quatro, eu sou quatro tornado oito, mas eu sou Um". E os textos das pirâmides, falando de Atom-Rá, dizem: "Quando Eu estava sozinho no Nun, e não possuía um apoio onde me firmar, eu desejei em meu coração que as coisas viessem à existência: então eu criei meu filho Shu e minha filha Tefnut, e criei miríades de estrelas". E de Osíris é dito que ele é o herdeiro de Geb e filho de Rá. E que sua alma renascida se encontra com a de Rá em Djedw, e se tornam um só. E o próprio Hórus afirma: Eu sou aquele que percorre milhões de anos, o que equivale dizer: sou eterno. Desta forma, podemos ver a profundidade filosófica que os ensinamentos de Heliópolis buscavam transmitir. E percebemos nela, a grandeza do pensamento religioso egípcio, que via em todo o universo, em toda a Criação, a manifestação de uma única força, um único princípio, se desdobrando, criando, destruindo e se renovando eternamente.

O Deus Shu e a Deusa Tefnut
SHU simboliza o ar atmosférico, princípio de expansão. Sua esposa TEFNUT é a umidade contida no próprio Shu, e é princípio de limitação. Daí ser o emblema de SHU uma pluma e o de TEFNUT, um cesto, símbolos dos elementos cósmicos dispersos sendo limitados, ajustados para uma realização. Diz a lenda que Atom-Ra concebeu SHU e TEFNUT masturbando-se, ou cuspindo-os. Shu e Tefnut são dois leões, duas auroras, uma aurora macho e uma aurora fêmea, colocados por tráz do trono de Rá. Esta metáfora traduz a idéia de que eles formam o princípio da Criação, a aurora cósmica, o céu superior, os gazes e elementos do ar acima da atmosfera, em expansão e contração, procedendo à elaboração da matéria. ( Gênesis: "contudo a terra era informe e vazia, e as águas de cima não estavam separadas das águas de baixo"). Uma vez tendo SHU e TEFNUT se organizado, eles se uniram e deram nascimento ao céu e à terra.

O Deus Geb e a Deusa Nut
0 deus GEB simboliza a terra e NUT, o céu. Quando os dois nasceram, Shu percebeu que estavam unidos em cópula e, ciumento, elevou sua filha NUT, sustentando-a em seus braços, pisando o filho GEB, separando assim o céu da terra. NUT simboliza o céu atmosférico, onde o ar puro e perfeitamente ordenado, filtra os raios solares e cósmicos, para que os mesmos atinjam a terra em ordenação perfeita para que esta produza, pois do contrário, a terra seria devastada. Por isso, entre Geb e Nut, está colocado Shu, o ar. 0 deus GEB é a terra, elemento distinto, pronto a produzir seus frutos. Mas estando Shu entre eles, GEB e NUT não podiam se unir e conceber ( Gênesis: "… e separou Deus as águas superiores das águas inferiores e a terra ficou enxuta") . Foi então o deus TOTH ( instruído por Rá ) e jogou xadrez com a lua, subtraindo do tabuleiro 5 peças, com as quais formou os 5 dias complementares ou hepagômenos, do calendário egípcio. Nesses dias, Geb e Nut puderam se encontrar e deram origem aos seus 4 filhos: OSIRIS, ISIS, SETH e NEFTIS.
Isto significa, que estando a terra árida, e não havendo condições dela produzir ( a atmosfera era densa, os elementos nela contidos não permitiam à luz solar chegar à terra ), a obra da Criação resultava incompleta, o processo divino tornava-se falho, e os objetivos divinos ficavam assim impedidos de manifestarem-se. Daí o deus Toth, como elemento mediador ( a Sabedoria Suprema ), aparecer para executar os desígnios do Criador: ganhando tempo, dissipando a atmosfera opressiva ( Shu entre Geb e Nut ), dava condições à que o processo evolutivo se desenvolvesse. Da união de Geb e Nut, nasceram os 4 deuses, tendo dois se originado do princípio de expansão ( Ísis e Osíris ); e dois do princípio de limitação ( Seth e Néftis).

Seth e Neftis
Seth representa o raio, o fogo, a tempestade, o vento seco do deserto, a força antagônica diametralmente oposta a Osíris . Seu hieróglifo é um animal estranho, e um tijolo vermelho. Isto porque Seth é a força que mantém a matéria coesa, unida, ligada. Ele representa a força que une os elementos e os fixa, tornando a matéria bruta e manifestada, e simboliza o temperamento, as paixões. 0 mito de Osíris morto por seu irmão Seth, traduz a simbologia do espírito aprisionado na matéria. Néftis, é irmã de Seth, e seu complemento. Seu nome se diz hieroglificamente NEB.HUT, isto é, a "Senhora da Casa".
Ou "Senhora do Templo". Néftis representa assim o corpo carnal, o "templo" material onde o espírito deve sofrer e vencer as paixões inferiores, para retornar ao Pai. Ela e Seth, representam as forças que mantém os átomos ligados, que unem a matéria e a prende, dando condição de que as formas assim venham à existência física. 0 mito Osiriano, neste aspecto, encerra a idéia filosófica de que o espírito encarnado deverá se aprimorar para renascer como alma purificada. A síntese se faz em HÓRUS, filho de Isís e Osíris, vingador do pai morto, alma renascida para a Luz.
Assim, a Eneada Heliopolitana não só explicava a Gênese, como também trazia um ensinamento profundamente espiritual. 0 Princípio Uno se desdobrava, do macro ao micro, sua síntese, preconizando o que mais tarde seria dito por outras religiões: o homem é criado à imagem e semelhança de Deus.
Os textos dos sarcófagos, nos ensinam que Atom-Rá diz: "Eu sou Um tornado dois, eu sou dois tornado quatro, eu sou quatro tornado oito, mas eu sou Um". E os textos das pirâmides, falando de Atom-Rá, dizem: "Quando Eu estava sozinho no Nun, e não possuía um apoio onde me firmar, eu desejei em meu coração que as coisas viessem à existência: então eu criei meu filho Shu e minha filha Tefnut, e criei miríades de estrelas". E de Osíris é dito que ele é o herdeiro de Geb e filho de Rá. E que sua alma renascida se encontra com a de Rá em Djedw, e se tornam um só. E o próprio Hórus afirma: Eu sou aquele que percorre milhões de anos, o que equivale dizer: sou eterno. Desta forma, podemos ver a profundidade filosófica que os ensinamentos de Heliópolis buscavam transmitir. E percebemos nela, a grandeza do pensamento religioso egípcio, que via em todo o universo, em toda a Criação, a manifestação de uma única força, um único princípio, se desdobrando, criando, destruindo e se renovando eternamente.

Shu
O ar, a atmosfera, segundo a Eneada Heliopolitana. Shu é uma aurora, um leão, sua representação é a de um homem com uma pluma sobre a cabeça.
Segundo o Mito, ele foi cuspido por Rá, ou saído do sêmem do deus, o que evidencia ser ele um "fluído", algo imaterial e abstrato agindo sob a vontade do Criador. Seu nome, proveniente da raíz "cuspir", "escarrar", ou também "ejacular", poderia ser o "Cuspido", ou "o Gerado pela Masturbação".

Tefnut
Uma mulher, às vezes com cabeça de leoa, usando na cabeça o disco solar e a serpente Uraeus. Uma leoa. Deusa que personificava a umidade e as nuvens. Filha de Rá. Irmã e esposa de Shu, formava com ele o primeiro par de divindades da enéade de Heliópolis. Mãe de Geb e Nut e avó de Osíris, Ísis, Seth e Néftis.

Geb

Ser divino, personificação da terra e esposo de Nut, o céu, separado dela por Shw, a atmosfera. Geb representa a concretização material, a vida concreta. É denominado Filho de Rá e Pai dos Homens. Conforme os mitos, Geb reinou sobre a terra e faraó é seu herdeiro. É um deus associado à Eneada Heliopolitana e seu símbolo é um ganso.

Nut
É a mais antiga deusa citada pelos textos, a protetora do Baixo Egito bem antes da unificação do país. A Deusa celestial geralmente aparece como uma Vaca. Seu nome significa simplesmente "a Deusa". Venerada principalmente em Sais, no Delta, ela é representada como uma mulher que usa a coroa vermelha do Baixo Egito. Seu nome se escreve com duas flechas ou dois arcos, o que a designa bem como uma deusa guerreira. Também é protetora, com Duramulef, do vaso canopo do estômago, ela parece ser uma divindade que basta a si própria, um dos raros princípios criadores femininos entre os deuses egípcios.

Ísis
Deusa dos mistérios, da magia, é a grande deusa venerada em todo o Egito. Modelo de esposa e mãe, ela é o poder fecundante da natureza, a Mãe Universal. Seus aspectos são tão diversos, que nela se fundem todas as deusas do Egito.

SETH
Irmão de Osíris, assassinou-o e se apoderou do trono do Egito. A querela para dar à Hórus filho de Osíris a posse legítima do reino, durou 80 anos e dividiu a opinião dos deuses. Vencido, Seth herdou o deserto, onde reina. Deus dos raios e tempestades, ele simboliza a matéria bruta e a ira no temperamento humano. Somente em épocas tardias foi considerado um deus do mal e demônio. Interessante notar que o aumentativo de Seth em árabe é Shaton, originando a palavra Satã. Seus animais são o asno, o porco, o javali, o burro, mais especificamente aqueles de pelagem avermelhada.

Neftis
Neftis é um dos filhos de Geb e de Nut, a irmã de Isis, Osíris e Seth. É esposa deste último, mas quando ele trai e assassina Osíris ela permanece solidária à Isis, ajudando-a a reunir os membros espalhados do defunto e também tomando a forma de um milhafre para velá-lo e chorá-lo. Como Isis, ela protege os sarcófagos e um dos vasos canopos e usa seu nome na cabeça: um cesto colocado em um edifício. É ainda na campanha de Isis que ela acolhe o sol nascente e o defende contra a terrível serpente Apófis.

HÓRUS, FILHO DE ÍSIS E OSÍRIS

Também se conta, em outros relatos sagrados, que a arca tinha saído para o mar quando Ísis chegou à foz do Nilo, e só terminou a sua viagem na muito longínqua costa da Fenícia, indo de encontro a um tronco que crescia à beira do Mediterrâneo, muito próximo da cidade de Biblos.
A árvore, milagrosamente, cresceu num instante, englobando o féretro flutuante no seu tronco para dar-lhe o último abrigo. Movido pelo destino, o rei de Biblos viu aquela gigantesca árvore e mandou cortar o seu tronco e com ele ordenou construir uma coluna para o seu palácio. Mas Ísis soube também do portentoso fato e empreendeu a viagem até chegar à cidade de Biblos, onde pediu ser recebida pelo rei, para fazer-lhe saber a razão da sua penosa expedição. O rei ouviu o relato da rainha e ordenou imediatamente que lhe fosse devolvido o caixão onde repousavam as restos mortais do bom Osiris.
Concedido o seu desejo e com o caixão em seu poder, regressou sigilosamente para o Egito, não sem antes tentar ocultar o cadáver do infeliz esposo da maldade de Seth. Mas Seth, senhor da noite e das trevas, deu com ele e voltou a tentar terminar com a ameaça que Osiris representava, fazendo com que os seus restos fossem dispersos por todo o imenso e intransitável delta do grande rio.
De novo Ísis empreendeu a procura dos restos de Osiris nos pântanos do Nilo e, um a um, reuniu outra vez o cadáver. Quando os conseguiu, tomou a forma de uma grande ave de presa e pousou-se sobre os despojos, batendo as suas asas até que com o seu ar benfeitor insuflou uma vida renovada em Osiris. O esposo ressuscitado tomou-a e a boa Ísis ficou grávida de Hórus, o filho que teria de vingar o pai assassinado e restauraria a ordem divina no Egito. Mas, enquanto chegava o momento do nascimento de Hórus, Ísis ocultou-se de Seth nos pantanosos terrenos do delta do Nilo.

A VINGANÇA DE HÓRUS
hORUSOsiris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente em Ísis e dela nasceu felizmente Hórus em Jenis. Com a presença devota da sua mãe foi educado no maior dos segredos, preparando-se com esmero e paciência o sucessor do rei assassinado no seu esconderijo do Delta, enquanto a mágica Ísis o cobria com a impenetrável couraça dos seus conjuros, esperando até que chegasse a hora da vingança definitiva.
E esta hora chegou, mas a luta entre Seth e Hórus seria longa e angustiosa; uma briga que aparecia não ter fim, na qual um e outro infringiam tanto mal como o que recebiam do seu adversário. Tão penoso era o combate que Toth, o deus da Lua e a divindade da ordem e a inteligência, se apiedou dos combatentes e interveio para mediar na disputa, levando a ambos perante o tribunal dos deuses e fazendo comparecer também Osiris, para que todos pudessem ouvir as razões de um e dos outros. O tribunal sentencia que, na causa entre Seth e Osiris, seja Osiris quem recupere o reino que teve em vida, e acrescenta à sua coroa a parte do país que originalmente correspondeu ao seu irmão e assassino. Na longa e controversa vista da briga entre Seth e Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juizes celestiais terminaram por sentenciar o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de Osiris recuperava o que correspondia pela sua linhagem: a sucessão no trono de Egito. Assim, o filho era reconhecido pela divindade como soberano indiscutível, dentro da tradição clássica que adjudicava.

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