segunda-feira, setembro 13, 2004

APONTAMENTOS SOBRE ALQUIMIA

Os estudos junguianos nos permitem, atualmente, uma maior compreensão da realidade. Assim sendo, "os escritos religiosos e literários, assim como as tentativas de protociências como a alquimia, a astrologia e a filosofia pré-socrática, podem ser compreendidos, atualmente, como a fenomenologia da psique objetiva".

O que apresentaremos a seguir são apontamentos retirados da obra "ANATOMIA DA PSIQUE", de EDWARD F. EDINGER, EDITORA Cultrix, São Paulo,1995. Fica, portanto, o convite para que o interessado que utiliza estes apontamentos, não deixe de consultar, dentro do possível, a fonte primária que, neste caso, é a utilíssima obra de EDINGER, supra citada.

EDINGER se propõe, continuando os estudos de JUNG, "demonstrar que o simbolismo alquímico é, em grande parte, um produto da psique inconsciente". O que o alquimista fazia era projetar na matéria o que ocorria na psique."... sua experiência, na realidade, era do seu próprio inconsciente".
As imagens alquímicas descrevem o processo da psicoterapia profunda que é idêntico àquilo que Jung denomina individuação.
O que torna a alquimia tão valiosa para a psicoterapia é o fato de suas imagens concretizarem as experiências de transformação por que passamos na psicoterapia. Tomada como um todo, a alquimia oferece uma espécie de anatomia da individuação. Suas imagens serão mais significativas para aqueles que tiverem tido uma experiência pessoal do inconsciente.

A OPUS
A idéia de OPUS é a imagem central da alquimia. O alquimista via-se como alguém comprometido com um trabalho sagrado: a busca do valor supremo e essencial. Diz um texto: "Todos os que buscamos seguir essa ARTE não podemos atingir resultados úteis senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua". Esses são requisitos da função do EGO. A paciência é fundamental. Coragem significa disposição para enfrentar a ansiedade.
Uma característica proeminente da OPUS é o fato de ser considerada um trabalho sagrado que requer uma atitude religiosa.
Isto significa que devemos estar orientados para o SI-MESMO (SELF), e não para o EGO
Outro aspecto do OPUS é o fato de ela ser um trabalho amplamente individual. Os alquimistas eram decididamente solitários. A OPUS não pode ser realizada por um grupo ou comitê.
Uma outra característica: refere-se ao seu caráter secreto. Os alquimistas consideravam-se guardiães de um mistério vedado aos que não tinham valor. Da mesma forma que os Mistérios Eleusinos, o segredo alquímico tinha sua divulgação proibida.

A PRIMA MATERIA

O termo PRIMA MATERIA tem uma longa história, que remonta aos filósofos pré-socráticos.
Esses antigos pensadores estavam presos a uma idéia a priori, uma imagem arquetípica que lhes dizia que o mundo é gerado de uma matéria única original, a chamada primeira matéria. Embora divergissem no tocante à identificação dessa matéria primordial, concordavam com sua existência.
Para Tales de Mileto era a ÁGUA; PARA Anaximandro era o "ilimitado" o ÁPEIRON Anaxímenes dava-lhe o nome de "AR"; e Heráclito a considerava "FOGO".
Essa idéia de uma substância única original não tem fonte empírica no mudo exterior. Exteriormente, o mundo é sem dúvida uma multiplicidade. Portanto a idéia deve ser a projeção de um fato psíquico. De acordo com o pensamento da época, imaginava-se que a primeira matéria passara por um processo de diferenciação por meio do qual fora decomposta nos quatro elementos : TERRA,AR,FOGO e ÁGUA. Pensava-se que esses quatro elementos, em seguida, se combinaram em diferentes proporções para formarem todos os objetos físicos do mundo. Impôs-se à PRIMA MATERIA, por assim dizer, uma estrutura quádrupla, uma cruz, que representa os quatro elementos, dois grupos de contrários: terra e ar, fogo e água. Psicologicamente, esta imagem corresponde à criação do EGO a partir do inconsciente indiferenciado mediante o processo de discriminação das quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e intuição.
Aristóteles elaborou a idéia da "prima matéria" em conexão com sua distinção entre matéria e forma. Segundo ele, a matéria elementar, antes de moldar-se ou de ter a forma imposta sobre si, é pura potencialidade - ainda não atualizada, porque o real não existe enquanto não assume uma forma particular. "a primeira matéria é o nome desse poder inteiramente indeterminado de mudança", segundo um comentador de Aristóteles.
Os alquimistas herdaram a idéia da "prima matéria" da antiga filosofia, aplicando-a às suas tentativas de transformação da matéria. Pensavam que, para transformar uma dada substância, era preciso, antes de tudo, reduzi-la ou fazê-la retornar ao seu estado indiferenciado original: "Os corpos não podem ser mudados senão pela redução à sua primeira matéria." E, outra vez: " As espécies ou formas dos metais não podem ser transmutadas em ouro ou prata antes de serem reduzidas à sua matéria essencial".
Esse procedimento corresponde de perto ao que ocorre na psicoterapia. Os aspectos fixos e estabelecidos da personalidade - rígidos e estáticos - são reduzidos ou levados outra vez à sua condição indiferenciada original, o que constitui uma das partes do processo de transformação psíquica.-
O problema da descoberta da ´prima materia´ corresponde ao problema da descoberta de material de trabalho na psicoterapia. Esses textos nos apresentam alguns indícios:
1 - Ela é ubíqua, está em toda a parte, diante dos olhos de todos.... Os humores e as reações pessoais insignificantes de todos os tipos são materiais apropriados para o trabalho psicoterápico.
2 - Apesar do seu grande valor interior, a ´prima materia´tem uma aparência exterior desagradável, razão pela qual é desprezada, rejeitada e atirada ao lixo.(Cf o Servo Sofredor em Isaías, no AT). Psicologicamente, isso significa que a "prima materia" está na sombra, naquela parte da personalidade tida como a mais desprezível. Os aspectos mais dolorosos e humilhantes de nós mesmos são os próprios aspectos a serem trazidos à luz e trabalhados.
3 - Aparece como multiplicidade - "tem tantos nomes quantas são as coisas " -, mas é, ao mesmo tempo uma. Essa característica corresponde ao fato de a psicoterapia, inicialmente, tornar a pessoa consciente de sua condição fragmentada, desconectada. De forma gradual, esses fragmentos vão sendo identificados como aspectos distintos de uma unidade subjacente.
4 - A "prima materia" é indiferenciada, sem fronteiras, limites ou forma definidos...

AS OPERAÇÕES

É deveras difícil compreender a alquimia tal como expressa nos escritos originais. EDINGER, o autor que seguimos de perto nesses apontamentos, apresenta as mais importantes operações alquímicas. Uma vez descoberta a ´prima materia´, deve-se submetê-la a uma série de procedimentos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal.
Não há um número exato de operações alquímicas... EDINGER apresenta sete dessas operações principais componentes da transformação alquímica, a saber:
CALCINATIO, SOLUTIO, COAGULATIO, SUBLIMATIO, MORTIFICATIO, PUTREFATIO, CONIUNCTIO.

1 - CALCINATIO
O processo químico da calcinação envolve o intenso aquecimento de um sólido, destinado a retirar dele a água e todos os demais elementos passíveis de volatização. Resta um fino pó seco. Exemplo clássico de calcinação, do qual surgiu o termo cal (calx= cal), é o aquecimento da pedra calcária (CaCO3) ou do hidróxido de cálcio para produzir cal viva (CAO, calx viva). Acrescentando-se água à cal viva, esta apresenta a interessante característica de geração de calor. Os alquimistas pensavam que continha fogo e por vezes a equiparavam ao próprio fogo.
A CALCINATIO é a operação do fogo. ( as outras são: solutio, água. Coagulatio, terra; e sublimatio, ar). Eis porque toda imagem que contêm o fogo livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a Calcinatio. Isso nos leva ao rico simbolismo do fogo. Para Jung o fogo simboliza a libido. Trata-se de uma afirmação bastante geral. Para conhecer as implicações do fogo e dos seus efeitos, devemos examinar a fenomenologia da imagem em suas inúmeras ramificações.
O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tornando-a branca... Há muitas alusões ao simbolismo do fogo ( purgatório, inferno, etc.).Um interpretação psicológica do fogo é importante, inclusive para a correta interpretação dos textos bíblicos.
O fogo do inferno é o destino daquele aspecto do ego que se identifica com as energias transpessoais da psique e as utiliza para fins de prazer ou de poder pessoais. Esse aspecto do ego, identificado com a energia do SELF (SI-MESMO), deve passar pela calcinatio. Só se considerará o processo "eterno" quando se estiver lidando com uma dissociação psíquica que separe de modo inevitável o bem do mal e o céu do inferno. "Pelo elemento fogo, tudo o que há de impuro é destruído e retirado".
Em toda parte, associa-se o fogo com Deus, sendo ele, por conseguinte das energias arquetípicas que transcendem o ego e são experimentadas como numinosas. Cristo também é associado ao fogo.
De uma forma característica, o pensamento místico distingue dois tipos de fogo. Os estóicos falavam de um fogo terrestre e de um fogo etéreo. O etéreo corresponde ao NOUS, o divino LOGOS, aproximando-se da concepção cristã posterior do Espírito Santo. A Palavra de Deus é descrita como um fogo. (cf Jr 5,14; Jr 23,29; Tg 3,6).Em Pentecostes O Espírito Santo desce como fogo ( At 2,3).. Nos tempos primitivos, o fogo era o principal método de sacrifício aos deuses. O fogo conectava o divino com o humano.
A calcinatio é um processo de secagem. A cinza é alquimicamente equivalente ao sal. Na psicoterapia envolve a secagem de complexos inconscientes que vivem na água.
De modo geral, quando enfrentamos a realidade da vida, ela nos propicia grande número de ocasiões para a calcinatio do desejo frustrado... A calcinatio tem um efeito purgador e purificador. A substância é purgada de sua umidade radical.
Por fim a calcinatio produz uma certa imunidade ao afeto e uma habilidade para ver o aspecto arquetípico da existência Na medida em que estamos relacionados com o aspecto transpessoal do nosso ser, experimentamos o afeto como fogo etéreo (Espírito Santo) e não como o fogo terrestre - a dor do desejo frustrado.
(O material aqui exposto é resumo livre da Obra: EDWARD F EDINGER,ANATOMIA DA PSIQUE, O Simbolismo Alquímico na Psicoterapia, Editora Cultrix,São Paulo, 1995. )

2 - SOLUTIO

A operação de SOLUTIO é um dos principais procedimentos da alquimia. Diz um texto: "A solutio é a raiz da alquimia". Outro afirma: "Não faças nenhuma operação enquanto não transformares tudo em água". Em muitos textos, a OPUS inteira é resumida na frase: "dissolve e coagula". Da mesma forma como a Calcinatio pertence ao elemento fogo, a coagulatio elemento terra e a sublimatio ao elemento ar, a SOLUTIO pertence ao à água. Em termos essenciais, a SOLUTIO transforma um sólido num líquido. O sólido parece desaparecer no solvente, como se tivesse sido engolido. Para o alquimista, a SOLUTIO significava com freqüência o retorno da matéria diferenciada ao seu estado indiferenciado original - isto é, à prima materia. Considerava-se a água como o útero e a SOLUTIO como um retorno ao útero para fins de renascimento.
A matéria primeira ou prima materia é uma idéia que os alquimistas herdaram dos filósofos pré-socráticos. Em Tales de Mileto, bem como em muitos mitos da criação, a água é o material original a partir do qual o mundo é criado. Pensavam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à prima materia... Diz um texto: "Os corpos não podem ser mudados senão pela redução à sua primeira matéria". Esse procedimento corresponde àquilo que se passa na psicoterapia. Os aspectos fixos e estáticos da personalidade não admitem mudanças. Eles são estabelecidos e têm certeza de seu caráter justo Para a transformação ocorrer, esses aspectos fixos devem primeiro ser dissolvidos ou reduzidos à prima materia. Fazemos isso por meio do processo analítico, que examina os produtos do inconsciente e coloca em questão as atitudes estabelecidas do ego.
Uma receita alquímica de SOLUTIO é:

 "Dissolve então sol e luna em nossa água solvente, que é familiar e amigável, cuja natureza mais se aproxima deles, como se fosse um útero, uma mãe, uma matriz, o princípio e o fim de sua Cida. E esta é a própria razão pela qual eles são melhorados ou corrigidos nesta água, porque o semelhante se rejubila no semelhante... Assim, convém te unires aos consangüíneos ou aos de tua espécie... E como sol e luna têm sua origem nesta água, sua mãe, é necessário, portanto, que nela voltem a entrar, isto é, no útero de sua mãe, para que possam se regenerados ou nascer de novo, e com mais saúde, mais nobreza e mais força".

O fato químico implícito neste texto é a capacidade de dissolução ou amálgama do mercúrio com o ouro e a prata, aqui chamados Sol e Luna. Com efeito, esse processo é a base do próprio método antigo de extração do ouro no minério bruto. Depois de pulverizado, o minério é tratado com o mercúrio, que dissolve o ouro. Separa-se então o mercúrio do ouro mediante a destilação a quente. Todavia, o texto considerado transformou esse processo químico numa imagem simbólica, pela superposição de um processo psicológico projetado.Sol e Luna representam, respectivamente, os princípios masculino e feminino quando se manifestam de forma concreta na personalidade no início do processo. Em outras palavras, a atitude consciente dominante do ego tem Sol como representante, sendo Luna a anima em seu estado atual de desenvolvimento. Dissolvem-se Sol e Luna na "água amigável" - isto é, o mercúrio -, equiparado ao útero materno e que corresponde à prima materia. A frase "assim, convém te unires aos consangüíneos ou aos de tua espécie" enfatiza o simbolismo do incesto.
Temos aqui uma exposição da descida no inconsciente, que é o útero materno de onde nasce o ego. Trata-se da prima materia que existe antes da diferenciação dos elementos pela consciência.
A SOLUTIO ocorre através de diversos procedimentos, sempre ligado à água ou símbolos correlatos. Às vezes há uma mistura de imagens, o que é comum na Alquimia. Por vezes aparece uma SOLUTIO combinada com a CONIUNCTIO. Sol e Luna são dissolvidos e, ao mesmo tempo, unidos. Isso corresponde, na Alquimia, asa figuras do rei e da rainha se banhando juntos na fonte mercurial.
A SOLUTIO tem duplo efeito: provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. Outras vezes a SOLUTIO pode tornar-se MORTIFICATIO. Isso é compreensível porque o que está sendo dissolvido experimentará a SOLUTIO como uma aniquilação de si mesmo. Heráclito diz: "Para as almas, é morte tornar-se água". Contudo a SOLUTIO leva ao surgimento de uma nova forma rejuvenescida. Sempre é a transformação do EGO inflado, hipertrofiado.
Às vezes o agente de dissolução é o princípio de EROS, VÊNUS OU AFRODITE. A mitologia de Vênus tem importantes relações com a água, vez que a deusa nasceu do mar. Seus perigosos poderes de solutio têm como representação sedutoras sereias ou ninfas aquáticas que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento.
Exemplo de solutio fatal ocorre na estória de Hilas, o belo favorito de Heracles.Durante a expedição dos Argonautas, Hilas foi enviado para pegar água. Jogado num poço por ninfas aquáticas, jamais voltou a ser visto. Aqui, a imagem da solutio acompanha uma complicação homo-erótica, a ligação entre Heracles e Hilas.
No Antigo Testamento temos o caso de David com Bersabéia, exemplo de solutio erótica, onde aparece a combinação dos temas da mulher, do banho e da dissolução do masculino. (Cf. 2 Sm 11,2 ).Temos aqui a dissolução desse homem íntegro. No Livro de Daniel há a história de Susana, onde os dois anciãos se aproximam luxuriosamente de Susana enquanto ela se banhava; depois de terem mentido os dois encontram sua queda. Esses exemplos e imagens nos mostram que o amor e/ou a luxúria são agentes de solutio.
Nos mitos, a ameaça de um dilúvio mundial era usada para encorajar a percepção de Deus. Da mesma forma, uma ameaça de inundação vinda do inconsciente pode ter um efeito salutar sobre um ego presunçoso e produzir a consciência da necessidade de relacionamento com o transpessoal. Esse estado é expresso no Salmo 69:
" Salvai-me, ó Deus, pois a água tem entrado até a minha alma. Estou imerso num lodo profundo, onde não consigo firmar pé: entrei nas águas profundas, onde me submergem as ondas" (1, 2 - AV).
"Libertai-me do Iodo, para que não fique submergido: livrai-me dos que têm ódio, e dad águas profundas. Não deixe que me afoguem as ondas, nem que me devore o abismo, e que sobre mim não se feche a boca do poço". (14, 15, AV).
Os sonhos com inundações referem-se à solutio. Representam uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver a estrutura estabelecida do ego e reduzi-lo à prima materia. As grandes transições da vida costumam ser experi~encias de solutio.

3 - COAGULATIO
Assim como a calcinatio é a operação do elemento fogo, a solutio a operação do elemento água e a sublimatio a operação pertinente ao ar, a coagulatio pertence ao simbolismo do elemento terra. Tal como ocorre com todas as operações alquímicas, a coagulatio refere-se, em primeiro lugar, à experiência no laboratório. O resfriamento pode transformar um líquido num sólido. Um sólido dissolvido num solvente reaparece quando o solvente é evaporado. Da mesma maneira, uma reação química pode produzir um novo composto sólido.

Em termos essenciais, a coagulatio é o processo que transforma as coisas em terra. "Terra" é, por conseguinte, um dos sinônimos de coagulatio. Pesada e permanente, a terra tem forma e posição fixas. Não desaparece no ar por meio da volatização, nem se adapta facilmente à forma de qualquer recipiente, ao contrário da água. Sua forma e localização são fixas; assim, para um conteúdo psíquico, tornar-se terra significa concretizar-se numa forma localizada particular - isto é, tornar-se ligado a um ego.

Costuma-se equiparar a coagulatio com a criação. Certos mitos da criação usam imagens explícitas de coagulatio. Na cosmogonia dos índios norte-americanos, aparece com frequência a afirmação de que o mundo foi criado por um "mergulhador da terra" que trouxe pedaços de lama das profundezas do mar. Esses mitos nos dizem que a coagulatio é promovida pela ação (mergulho, batedura, movimento de espiral). A exposição à tempestade e à tensão da ação, a batedura da realidade, solidifica a personalidade.
A subst^ncia a ser coagulado é o mercúrio fugido. Trata-se do Espírito de Mercúrio acerca do qual Jung escreveu amplamente. Ele é, em termos essenciais, o espírito autônomo da psique arquetípica, a manifestação paradoxal do Si-mesmo transpessoal. Submeter o Espírito de Mercúrio à coagulatio significa nada menos que ligar o ego com o Si-mesmo, realizar a individuação. Os efeitos menores do fugido Mercúrio aparecem nos efeitos de todos os complexos autônomos. A assimilação de um complexo é, portanto, uma contribuição à coagulatio do Si-mesmo.
No texto "O Turba Philosophorum" menciona três agentes da coagulatio: o magnésio, o chumbo e o enxifre. Magnésio significava, para os alquimistas, algo diferente do que representa hoje; era um termo geral que designava vários minérios metálicos crus ou misturas impuras. Psicologicamente, isso pode ser uma referência à união do espírito transpessoal com a realidade humana corriqueira. Talvez seja esse o sentido da observação de Jung relatada por Aniela Jaffé:Quando Jung, na casa dos oitenta anos, discutia com um grupo de jovens psiquiatras, com as surpreendentes palavras: 'E assim, vocês têm de aprender a se tornarem inconscientes de modo decente.'''
O próximo agente do coagulatio é o chumbo. O chumbo é pesado, sombrio e incômodo. É associado ao planeta Saturno, que carrega as qualidades da depressão, da melancolia e da limitação mortificante. assim sendo, o espírito livre e autônomo deve vincular-se com a pesada realidade e com as limitações das particularidades pessoais. Na prática analítica, esse vínculo com o chumbo costuma ser efetuado quando o indivíduo assume responsabilidade pessoal por fantasias e idéias inconstantes mediante sua expressão diante do analista ou de outra pessoa significativa. é surpreendente a diferença entre uma idéia falada. É a mesma diferença entre o mercúrio e o chumbo (Ver Figura Abaixo).
Águai Agrilhoada a um animal do solo.

O terceiro agente coagulador mencionado é o enxofre. sua cor amarela e seu caráter inflamável o associam ao sol. Por outro lado, seus vapores impregnam de mau cheiro e escurecem a maioria dos metais, razão pela qual é um aspecto característico do inferno. Jung sintetiza sua brilhante discussão do simbolismo do enxofre, em Mysterium Coniunctionis, com as seguintes palavras:
O enxofre constitui a substância ativa do sol ou, em linguagem psicológica, a força impulsionadora da consciência: de um lado,a vontade, melhor concebida como um dinamismo subordinado à consciência; do outro, a compulsão, uma motivação ou impulso involuntário, que vai desde o simples interesse até a possessão propriamente dita. O dinamismo inconsciente corresponderia ao enxofre, porque a compulsão é o grande mistério da existência humana. É o cruzamento da nossa vontade consciente e da nossa razão por uma entidade inflamável que está dentro de nós, manifestando-se, ora como um incêndio destruidor, ora como um calor que gera vida.
O enxofre é paradoxal: "Como corrupto, tem afinidade com o diabo, mas ao mesmo tempo se apresenta como um paralelo para Cristo". Portanto, se parte do significado do enxofre é desejo - procura do poder e do prazer - chegamos à conclusão de que o desejo coagula.
O desejo irrefreado é não apenas carcterística da carne - o aspecto coagulado da psique -, como, ao que se afirma, inicia o processo da encarnação. Por exemplo, encarnação e desejo se acham vinculados em O livro tibetano dos mortos. Quando está para encarnar-se e alojar-se num útero, a alma tem visões de casais em coito e dela se apossa num intenso desejo: se for de um homem, tem desejo pela mãe.
Sonhos de aviões em choque e de objetos cadentes costumam referir-se à coagulatio. Exemplo disso é o sonho de um homem que se encontrava no processo de desenvolvimento de uma relação mais autêntica com sua religião.
A experiência psicoterapêutica comprova a idéia de que o desejo promove a coagulatio. Para aqueles que já se acham movidos pelo desejo, a coagulatio não é a operação necessária. Contudo, muitos pacientes têm um investimento inadequado de libido, uma fragilidade em termos de desejo que por vezes beira a anedonia (vincula-se à palavra aneo, do grego Anaides, que não tem órgãos sexuais). Essas pessoas não sabem o que querem e temem os próprios desejos. Assemelham-se a almas não nascidas que, no céu, fogem da queda na realidade concreta. Elas precisam cultivar seus desejos - procurá-los, alimentá-los e agir de acordo com eles. Somente depois que o fizerem a energia psíquica se mobilizará para pomover experiência de vida e desenvolvimento do ego. Na psicoterapia, o surgimento de desejos de transferência indica com frequência o início de um processo de coagulatio, razão por que deve ser tratado com cautela.
O atrativo do desejo é a doçura da relização. O mel, na qualidade de exemplo supremo da doçura, é, portanto, um agente de coagulatio. O mel, graças às suas qualidades de preservação, era considerado pelos antigos como um remédio da imortlidade tendo sido usado na Eucaristia em algumas comunidades cristãs primitivas.
Nos sonhos modernos, referências a doces (balas, bolos, biscoitos, etc) em geral indicam uma tendência regressiva de busca infantil de prazeres, o que requer uma interpretação redutiva (mortificatio). às vezes, contudo, indicam uma autêntica necessidade de coagulatio. A coagulatio costuma suscitar resistências porque dá a impressão de ser moralmente ambígua, capaz de orivicar a dor e o conflito.
Desde a antiguidade manifesta-se a tendência de identificar a matéria com o mal, que alcançou extremos em algumas seitas gnósticas. A queda da alma do seu estado imortal para a forma corporal também costuma ser vinculada com um crime primal.
Segundo antiga lenda, havia um crime dos Titãs por trás da criação dos seres humanos. Enquanto brincavam com o menino dionísio, eles o desmembraram, ferveram e comeram - deixando apenas o coração, que Zeus resgatou. Como punição, Zeus os consumiu com o relâmpago e usou suas cinzas para criar a raça humana. Desse modo, a "terra tit^nica", que continha partículas espalhadas do divino Dionisio, tornou-se a argila da coagulatio humana - material produzido por um crime primal.
Prometeu, que ensinou os seres humanos a enganarem os deuses e a ficarem com a melhor parte do animal sacrifical para si mesmos, roubou o fogo para dá-lo às pessoas e por isso foi punido pela coagulatio sendo acorrentado a uma pedra. Da mesma maneiraa, Adão e Eva foram expulsos da condição paradisíaca, que precede o ego, depois do crime que cometeram ao comer do fruto proibido. Esses exemplos demonstram que o desenvolvimento do ego associa-se à experiência do mal, do crime e da culpa.
Assim, a consciência do mal que há em cada um - isto é, percepção da sombra - coagula. Se deseja contribuir para o mundo real, deve-se deixar um espaço para o mal. As pessoas santas ou espiritualizadas costumam ter vida curta. No passado, com frequencia morriam de tuberculose. É perigoso ser unilateral, mesmo na bondade.
Os sonhos frequentemente fazem alusão ao aspecto criminoso da condição do ego. A presunção de assumir a vontade e a consciência pode ser representada como um roubo. O atrevimento que consiste em seguir a autoridade interior é expresso como o assassinato de uma autoridade projetada, talvez como um parricídio. O ser um ego está inextricavelmente vinculado com a culpa, punida com a coagulatio - confinamen to dentro dos limites da própria realidade pessoal.
A coagulatio costuma ser seguida por outros porcessos, em geral pela mortificacio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcedência.
O mais grandioso símbolo da coagulatio é o mito cristão da Encarnação do Logos Divino. Cristo nas ceu de uma virgem; isto é, encarnou por meio da terra pura. A Virgem Maria corresponde à noção alquímica de "terra branca foliada". Diz a alquimia: "Semeia teu ouro na terra branca foliada". A terra branca corresponde à cinza que sobreviveu `calcinatio. Trata-se da contradição, porque a terra é tipicamente branca. A terra negra do desejo do ego torna-se a terra branca que encarna o Si-mesmo.
A Cruz representa os quatro elementos de que é feito todo ser manifetso. Fixatio é um dos sinõnimos de coagulatio, havendo entre os alquimistas imagens da serpente mercurial fixada à cruz ou transfixada numa árvore.
Do ponto de vista do simboliosmo da coagulatio, compartilhar do alimento eucarístico significa a incorporação, por parte do ego, de uma relação com o Si-mesmo.

1 Comments:

Blogger Eurico said...

No trecho da receita alquímica da SOLUTIO, a frase "o princípio e o fim de sua Cida" deve ter uma falha de digitação. Deve ser Vida, creio eu.
Abraçamigo e fraterno.

19 de julho de 2008 07:39  

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