sábado, maio 29, 2004

ALQUIMIA

História e Relações
Breve Histórico
Alquimia - palavra de origem egípcia. O Egito cresceu com a crença de que existia poderes mágicos em fluxos e ligas; e a arte de manipular os metais, bem como o conhecimento da sua química e dos poderes mágicos eram descritos pelo nome de "Quemeia". O que quer dizer, "preparação do minério preto" considerado o princípio ativo da transmutação dos metais. A esse nome juntou os árabes o artigo al, e assim obtivemos o nome Al-Quemeia, ou Alquimia. .
A história da alquimia é considerada como início a partir dos primeiros registros encontrados. M. L. von Franz, através de pesquisa na biblioteca do Vaticano, conseguiu rastrear até início do séc. I a C. Na verdade a alquimia possui origens bem mais arcaicas, porém, não se tem dados escritos que comprove sua existência, porque era procedimento técnico usado na magia religiosa de sacerdotes egípcios; eram segredos guardados hermeticamente que eram passados por via oral para os iniciados, e quem revelasse tais segredos era tremendamente castigado. Os mistérios sagrados foram passados para os sacerdotes através de THOTH (o mesmo Hermes grego) autor da famosa Tábua de Esmeralda que narra princípios do 'elixir da longevidade'. Existem várias versões desta Tábua que foi escondida sob dois pilares, os papiros mais antigos que falam sobre ela datam da 12a dinastia (1991-1783 a C.). Alguns escritores colocam Hermes e Enoch (o sétimo depois de Adão) como sendo a mesma pessoa; a narrativa da vida deles é muito semelhante - inclusive por terem escondido segredos sob dois pilares. .
A Arábia é tida como o berço da Alquimia, porém, sua origem decorre de dois países: Grécia (com o deus Hermes) a alquimia possuía um caráter teórico, a filosófica aplicada a disciplina e ao entendimento do regimento do cosmo; no Egito (com o deus Thoth) a alquimia possuía alto caráter técnico (químico) aplicada à religião. Os árabes deram consistência a esta disciplina, através das traduções de manuscritos souberam reunir essas duas tendências. A data estimada situa-se entre o século I a.C. e o III d.C..

Alguns Alquimistas/Herméticos:
Hermes Trimegistro (Hermes = o interprete - Trimegistro = 3 megas = 3 vezes grande, ou o que possui os 3 reinos de sabedoria: mineral, vegetal e animal). É atribuída sua existência no ano de 1900 aC.; Hermes é mesmo Thoth dos egípcios e sua existência acompanha a vida religiosa do Egito.
Enoch (que significa Inicie, ou, Iniciador), foi um rei hebreu que construiu um santuário subterrâneo onde colocou sob 2 pilares, segredos (princípios da Alquimia) que seriam uma herança para o desenvolvimento da humanidade. Este é o mesmo mencionado nos Gêneses, o sétimo da geração de Adão, sua vida revela riquezas de detalhes na semelhança com Thoth.
Jetro - sacerdote etíope, foi sogro de Moisés no exílio.
Moisés - (1705-1594 a. C.) teve a iniciação egípcia e também teve um aprendizado etíope em seu exílio.
Salomão - supõe-se que tenha nascido 1033 anos antes de Cristo, suas obras alquímicas mais conhecidas são: 'A Clavícula de Salomão', 'Sobre a Pedra dos Filósofos'.
Pitágoras - o sábio filósofo (590-470), levou 22 anos para adquirir o título de sacerdote egípcio. Já preste a regressar à Grécia para exercer seu ministério, o Egito foi conquistado e juntamente com alguns sacerdotes egípcios foi levado para a Babilônia. Lá ficou cativo por 12 anos, onde se aprofundou na magia que ali se difundia.
Cleópatra - descendente de faraó foi também iniciada. Dizem que por sua magia conseguia enganar os dominadores romanos.
Demócrito - (séc. V aC.) era filho de nobre da Persa e foi iniciado nos mistérios egípcios; morreu com 109 anos.
Dioscórides - médico grego, viveu cerca de 50 anos aC.
Sacca - (séc. II), fundou a escola Neoplatonica de Alexandria.
Alexandre de Afrodisisas - séc. II inventou o alambique, destilou água marinha. Ocultista que não desfrutou grande fama. Viveu entre o séc. II e III.
Zózimo - (séc. III) viveu a maior parte de sua vida em Alexandria, afirmava que o reino egípcio é subsidiado pela arte de fazer ouro, um dos alquimistas mais respeitados, conhecido como A Coroa dos Filósofos.
Bolina - (séc. III) conhecido como o Sábio.
Jaber abu Musa Giafar -séc. VII, árabe da Mesopotâmia, conhecido por Magister Magistrorim.
Khalid - séc. VII, rei árabe que iniciou Morienus nos segredos da Alquimia.
Morienus - (séc. VII) morreu como um ermitão cristão nas montanhas perto de Jerusalém. Ele foi conhecido por enviar grandes doações anuais em ouro para a Igreja Cristã
Geber - (séc. VIII) médico iniciado na fraternidade Sufi (representa o sistema ascético de misticismo islâmico que acentua contemplação como um veículo para união extática com o Divino).
Avicena - (980-1087) médicos, também, iniciado na fraternidade de Sufi. Era chamado O Príncipe dos Médicos.
Calid - séc. X, sultão do Egito.
Albertus Magnus (1193-1280) monge dominicano.
Guido Bonatti de Forlì (1223-1296).
Roger Bacon - (1214-1294) chamado doctor Mirabilis, era um monge franciscano.
São Tomás de Aquino - (1225-1274) monge dominicano conhecido como Doutor Angélico. Nasceu no Castelo de Roccasecca, arredores de Aquino, no norte do reino de Nápoles. Estudou com Alberto Magno, por quem teria sido iniciado no conhecimento de alquimia. Muitos estudiosos da obra de Tomás de Aquino não acreditam, que ele tenha escrito livros de alquimia, por ser esta arte considerada herética. No momento de sua morte, Alberto Magno, que se encontrava em Colônia, anuncia o fato aos outros frades e chora.
Arnald de Villanova - (1245-1313) foi médico, astrólogo, teólogo e diplomata.
Raimundo Lullo - (1234-1315) se aliou durante um tempo aos franciscanos, foi iniciado por Arnold de Villanova.
Afonso X - (1252-1284 rei de Castela, chamado O Sábio.
Papa João XXII - (1316-1334) foi acusado de perito alquímico e é autor de significante trabalho sobre transmutação. Conseguiu fortuna, de forma misteriosa, que beneficiou a igreja.
Nicholas Flamel de Pontoise - (1330-1417) misteriosamente arrumava fortunas para construir hospitais e restabelecer igrejas parisienses.
Rosenkreutz - em 1480 restaura algumas fraternidades herméticas.
Paracelso - (1493-1541), nome original: Aurélio Filipe Teofrastro Bombast. Nasceu na Suíça, viajante solitário e nômade que desprezava o mundo do poder, do dogma e dos valores estabelecidos. Morreu misteriosamente na Áustria, sua tumba foi encontrada vazia anos depois. Seu epigrama "A Magia é uma Grande Sabedoria Oculta - A Razão é uma Grande Loucura Pública".
Maximilino - (1527-1576) imperador da Alemanha.
Giovanni Battista della Porta - (1540-1615) conhecido como Magus Veneficus.
Irineu Filalet - (1612-1680).
Conde de S. Germano (1698-1784) - Voltaire descreveu St. Germain como " o homem que não morre ". Em janeiro de 1661 foi condenado a morte por prática de heresia, espagiria, e astrologia. Sendo aprisionado, fugiu miraculosamente, andou vagando por diversos lugares, foi ministro e conselheiro do rei da Dinamarca.
Borri - nasceu em maio de 1627, jesuíta e filósofo hermético italiano. Freqüentou os laboratórios reais, numa projeção por meio de líquidos com o qual encheu duas ânforas, que fechou com 2 chaves, uma dando a rainha e a outra conservando-a com ele, pois o resultado devia ser observado depois de certo tempo. Depois de muito tempo, a rainha, vendo que o alquimista não voltava, zangou-se por Ter sido ridicularizada; fez abrir a caixa e apoderou-se dos vasosos e constatou em um havia se transformado em ouro e o outro em prata; e os 2 metais eram perfeitos em suas respectivas qualidades.
Filofotes - (1869-1894) nome verdadeiro Alberto Poisson .
Doutor Papus - nasceu em 1838 recebendo o nome de Gerardo Enxausse.
Marquês de Saint-Yves d'Alveydre, nascido em 1844.
Newton - fez tradução da Tábua Esmeraldina; G. W. Leibniz, como também Robert Boyle, o pai da química moderna, aceitaram a teoria da transmutação Alquimia.
Carl Gustave Jung - (1875-1961) utilizou dos princípios da alquimia no processo de análise.
Marie-Luise von Franz - seguiu os passos de Jung, ele via nela uma alquimista nata. Autora dos livros 'Alquimia' e 'Alquimia e Imaginação Ativa'; além de ser colaboradora de Jung em vários de seus livros de alquimia - morreu janeiro 1998.de ser colaboradora de Jung em vários de seus livros de alquimia - morreu janeiro 1998.

Uma pequena introdução no vasto campo entre o céu e o inferno,
ou, entre o inconsciente e a consciência

Popularmente a alquimia é conhecida como a ficção da transformação de um vil metal em ouro e na busca dessa realização deu-se origem à Química; porém é desconhecida sua utilidade prática que não implica, necessariamente, na transmutação em ouro. Este é apenas um aspeto da alquimia ocidental, poderemos entender melhor a abrangência de sua riqueza através a Alquimia oriental, difundida pelo Taoísmo na busca do Elixir da longa vida: o caminho para o encontro com o Tao é o caminho que o homem pode chegar a sua integridade, à concordância entre seu interior e o seu exterior - a coincidentia oppositorum do micro com o macrocosmo; em termos da alquimia taoísta implica na "moldagem da alma-yin a fim de transformá-la em alma-yang, isto é, apagar a luz da consciência, que originalmente faz parte da natureza yang, e que foi turvada pelas cobiças e vícios de nossas idiossincrasias - alma-yin, que leva a energia vital a se transbordar e se perder. 'Quando assim esbanjado, o homem adoece; quando enfraquece, o homem envelhece; e, quando se esgota, sobrevém a morte'. Por isso é importante manter em harmonia e equilíbrio e moldar a alma yin mediante o Exercício da respiração uniforme, tranqüila e em meditação não apenas para submeter à consciência irrequieta da natureza yin a um certo controle, porém muito mais para colher a energia vital ao oceano de ch'i, a profundidade do inconsciente onde, mediante essa concentração de todas as energias vitais, é ativado o eu, a essência mais íntima do homem". Mokusen Miyuki em A Doutrina da Flor de Ouro.
Devemos méritos a C.G. Jung pela utilização da Alquimia na prática psicológica. Da mesma forma que os antigos alquimistas se colocavam a serviço da natureza para apressar seu processo de evolução, na análise junguiana, não só possui este objetivo, como também, percebe na alquimia todo um processo que acompanha o desenvolvimento psíquico - Jung denomina Individuação.
Se fizermos um rastreamento da Alquimia, poderemos perceber, claramente, a ligação desta disciplina com a psicologia. Jung declarou que, fundamentada na filosofia na filosofia natural da Idade Média, a alquimia formava, de um lado, a ponte em relação ao passado, com o gnosticismo, e, do outro, ao futuro, com a moderna psicologia profunda [na alquimia, Jung constatou um dos mais importantes ramos do que se tem por vezes chamado de Tradição Pansófica ou a herança de sabedoria originária de fontes gnósticas, herméticas e neoplatônicas, através de numerosas manifestações posteriores até a época contemporânea].
O alquimista com a finalidade da realização da Grande Obra, se estendia por três princípios de dedicação: 1o ao mundo intelectual, dizendo ao homem: "levanta-te até deus por meio do êxtase e da sublime comunhão que existe entre a natureza e o altruísmo"; 2o - ao mundo astral ou psíquico: o aprendiz devia conquistar a santidade dominando os sentidos, e entrar no mundo astral, libertando a alma (o duplo sidéreo) das cadeias corpóreas; 3o - ao mundo físico, mediante a transmutação dos corpos e dos metais, operada com a síntese química. A capacidade de produzir o ouro perfeito, o alquimista deveria saber produzir o ouro filosófico e o ouro astral. Para se ter uma idéia do difícil aprendizado, Pitágoras em sua iniciação no Egito levou cerca de 20 anos.
São vastos os benefícios trazidos pela alquimia para a humanidade; ela ocorre, muitas vezes, de maneira inconsciente. embora quando se agi conscientemente com este pressuposto teórico, garanto que o objeto produzido se aproximará da qualidade do ouro; quem negaria que o Fausto de Goethe não possui tamanha qualidade? Não poderíamos dizer que se trata duma obra literária transmutada em ouro? Esta obra não teria tamanho valor se não fosse seus estudos de alquimia (influência de seu envolvimento afetivo com sua encantadora 'bruxa'). Goethe levou cerca de 40 anos na elaboração dessa 'grande obra'. Para atingir tamanha amplitude poética e profundidade simbólica, necessitou do autor o momento certo de sua maturidade. A transmutação da matéria acompanha a elevação espiritual do alquimista, necessita primeiramente de uma transformação psíquica para daí ocorrer a devida mudança na obra. Jung diz: "... a alquimia representa para nós um verdadeiro depósito do tesouro dos símbolos, cujo conhecimento é extremamente proveitoso para a compreensão dos processos neuróticos e psicóticos" (Mysterium Coniunctionis pg.XVII). Independente do grau e qualificação da patologia psíquica apresentadas; um aspecto que nivela o indivíduo 'normal' do doente psíquico trata-se do fato de seguir na vida sem perceber os sintomas de comportamentos e sem conscientização do significado simbólico daquilo que a vida nos impõe. Desta forma o processo de viver dependerá da conjuntura na qual o instinto se manifestará e é este agir instintivo que caracterizará o perfil animal que distância o indivíduo da condição humana saudável. Em termos alquímicos essa postura animal corresponde ao metal chumbo que no opus se transformará em ouro - semelhante a deus.
Não são todos que possuem a predisposição de ver o que está por de traz daquilo que se apresenta, quanto mais quando se lida com símbolos alquímicos - os alquimistas não passavam seus segredos a qualquer discípulo, o conhecimento era transmitido, concomitante, à medida da evolução espiritual alcançada por ele. Para o bom entendedor dos aspectos simbólicos (o alquimista em potencial), consegue ver o 'espírito da matéria'.
O trabalho do alquimista encontra-se em unir os opostos e o princípio disso está no discernimento do espírito que cada matéria possui, pois cada matéria possui seu par e é na união dos opostos (sem deixar de lado o grande amor avassalador da 'alma parceira') é que se alcança o 'casamento alquímico'. Com esta capacidade é que se discrimina o grau de evolução do alquimista em potencial, inserido em várias áreas da vida: nas artes, astrologia, medicina, psicologia, filosofia, ecologia, na simples vida cotidiana etc.
O conhecimento da alquimia permite o agir duma maneira menos alienante e mais criativa, possibilita o entendimento do processo da vida. Talvez Nietzsche não teria sofrido tanto, se tivesse um conhecimento de alquimia, pois poderia conscientizar-se que seu 'super homem' não passou de uma projeção psíquica; ele, incomodado pela massificação da religião, desceu em seu mundo atônico e de lá emergiu aos céus com seu 'super homem' e com ele se identificou - neste momento, teve a experiência de uma vivência arquetípica. É comum nos momentos de grande insatisfação, deparar com nossa Sombra que é oculta e /ou reprimida pela consciência; ela é uma verdade preciosa que, em determinado momento, vem a luz, porém, não pode reinar, ela é importante, apenas, para ser assimilada. Na alquimia, este estado é denominado de 'coniunctiones' e dela surge o novo nascimento; a identificação de Nietzsche não permitiu esse passo, foi tomado pelo que os gregos chamam de hybris - o querer possuir o que pertence aos deuses - teve uma inflação egoica.
Italo J.Furletti.
Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/ps_italo/alquimia/alquimia.htm




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A TEOGONIA DE HESÍODO

E então, primeiramente, surgiu Caos...
Hes.Th. 116
A Teogonia, "o nascimento dos deuses", se compõe de 1022 versos hexâmetros e detalha a origem e genealogia dos deuses gregos. Tradicionalmente atribuído a Hesíodo, a data de composição é tão imprecisa quanto a data em que o poeta deve ter vivido.

A idéia em si não é original, pois já havia sido desenvolvida pelos egípcios (séc. -XXIV), pelos babilônios (-2000/-1500) e pelos hititas (-1400/-1200) muitos anos antes. Hesíodo, no entanto, foi o primeiro a sistematizar os antigos mitos da criação e a organizar os mitos gregos numa seqüência lógica.

Argumento
Não há nenhuma intenção dramática ou enredo, e sim um plano expositivo. Hesíodo descreve a criação do mundo e a seguir relaciona, cronologicamente, cada uma das gerações divinas. O argumento gira em torno de três temas básicos:

1. a criação do mundo;
2. genealogia das gerações divinas;
3. a ascensão de Zeus ao poder.


Segundo a cronologia hesiódica, os deuses olímpicos seriam os da 3ª geração, e eram governados por Zeus, cuja história se desenvolve em boa parte do poema. Hesíodo, no entanto, vai além da simples enumeração e habilmente entremeia a árida sucessão de deuses e deusas com raros, curtos mas elucidativos trechos dos antigos mitos.

Resumo do poema
O poema tem 1022 versos e ocupa 39 páginas da edição de Evelyn-White (1920), na qual se baseia este resumo. O narrador é o próprio poeta.
após uma invocação às Musas, Hesíodo relata como as deusas inspiraram seu canto ao cuidar de ovelhas perto do Monte Hélicon (1-35); a origem das Musas, filhas de Zeus, é também contada (36-115).

Segue-se a origem dos primeiros deuses, que personificavam os elementos primordiais do Universo (116-153): Caos, o vazio primitivo; Gaia, a terra; Tártaros, a escuridão primeva; Eros, a atração amorosa. Os descendentes imediatos são também relacionados: Hemêra, o dia; Nix, a noite; Urano, o céu; Ponto, a água primordial.

Os mais notáveis descendentes de Uranos e Gaia foram os titãs, como Crono, Oceano, a água doce, Jápetos e o gigantesco Ceos; as titânides, como Têmis, a lei, e Mnemósine, a memória; os ciclopes, que tinham um único olho; e os hecatônquiros, gigantes com cem braços e cinqüenta cabeças.

Depois, o poeta descreve como Crono assumiu o poder (154-200) e inadvertidamente deu origem a Afrodite, deusa do amor sensual; relaciona os descendentes de Nix, entre eles Tânato, a morte, Hipno, o sono, e Oneiro, o sonho (211-232); os descendentes de Ponto (233-336), entre eles Nereu, o mais antigo deus do mar e pai das nereidas e Fórcis, progenitor de monstros como as Górgonas, Equidna, com tronco de mulher e cauda de serpente, e a Esfinge; os descendentes de Oceanos (337-403), entre eles os rios e fontes, as ninfas da terra firme, os ventos, Métis, a sabedoria, e Hélio, o sol; os descendentes de Ceos (404-452), especialmente Hécate, a dádiva.

Figura 1. Zeus derruba um titã não identificado. Detalhe do relevo de mármore do frontão do Templo de Ártemis em Corfu (pedimento oeste). Zeus CronosData: -590. Corfu, Archaeological Museum. © Ekdotike Athenon. A história de Zeus, filho de Crono, e como conseguiu destronar o pai é contada nos versos 453-506. A lenda de Prometeu, filho de Jápeto, e a criação da primeira mulher são relatadas nos versos 507-616. Nos versos 617-721 é descrita a titanomaquia, luta entre Zeus e os titãs pelo domínio do mundo. Auxiliado entre outros por seus irmãos Hades e Posídon, pelos ciclopes e pelos hecatônquiros, Zeus vence os titãs e prende-os no Tártaros, descrito juntamente com o mundo subterrâneo nos versos 722-819.

Vencidos os titãs, Zeus teve ainda de enfrentar e vencer o monstruoso Tífon, filho de Gaia e Tártaro (820-880), mas logo depois consegue se tornar o soberano supremo dos deuses. Algumas de suas aventuras com deusas e mortais são descritas nos versos 881-964, e notável é a lenda da filha de Zeus e Métis, Atena, que ao nascer saiu da cabeça de Zeus. Nos versos 965-1020 são descritos os amores entre deusas e mortais.

Os dois últimos versos, 1021-1022, contêm uma nova invocação às Musas e ligam a Teogonia a um poema autônomo perdido, o Catálogo das Mulheres, do qual restam apenas alguns fragmentos.

Fontes
numerosos manuscritos completos e diversos fragmentos significantes de papiros chegaram até nós. Os mais antigos manuscritos são o Rylands 54, de Manchester (séc. -I/I), o Laurentianus xxxii 16, da Biblioteca Laurenciana de Florença (séc. XIII); o Vaticanus 915, da Biblioteca do Vaticano (séc. XIV); e o Parisinus 2883, da Biblioteca Nacional de Paris (séc. XV).

Edições
A edição princeps da Teogonia é a aldina, de 1495. As principais edicões modernas são as de Gaisford (1814/1820), Koechly e Kinkel (1870), a de Rzach (1902), a de Evelyn-White (1914) e a de Mazon (1928). A mais moderna e a mais utilizada atualmente é a de Solmsen (1966). Aqui, foi utilizada a edição revisada de Evelyn-White (o.c.).

A primeira tradução completa da Teogonia para o português é a de Torrano (1981), recentemente reeditada (Iluminuras, 1991), seguida posteriormente pela de Jabouille (1999).

Passagens selecionadas
A primeira passagem ilustra a seqüência da cosmogonia grega a partir de Urano, o céu, e Gaia, a terra; a segunda, como duas divindades abstratas, Hipno e Tânato, o sono e a morte, foram genealogicamente relacionados por Hesíodo a Nix, a noite.

Urano e Gaia
E Gaia certamente deu origem primeiro ao estrelado Urano
igual a si mesma, para circundá-la em toda sua volta
e ser para os deuses bem-aventurados morada imutável e eterna.
E deu origem a grandes Montanhas, agradáveis lugares para as divinas
Ninfas que moram no alto, em vales arborizados das montanhas.
E originou também a infecunda vastidão que se eleva em vagas,
Pontos, sem o desejável ato de amor. Mas depois,
tendo se deitado com Urano, deu à luz Oceanos, de profundos turbilhões,
Ceos, Crio, Hipérion e Jápeto;
Téia, Réia, Têmis e Mnemósine;
Febe de dourada coroa e a amável Tétis.
E depois deles o mais jovem, Crono de mente tortuosa,
o mais terrível dos filhos; e ele odiou o vigoroso pai.

Hipno e Tânato
E lá os filhos da sombria Nix têm morada,
Hipno e Tânato, deuses terríveis; e nunca
o brilhante Hélios olha para eles com seus raios
quando sobe ao céu nem quando desce do céu.
Um deles a terra e a vasta superfície do mar
percorre tranqüilo e aos homens é agradável;
o outro, de coração de ferro e sentimentos de bronze,
impiedoso no peito, segura dentre os homens aquele
que agarra; e é também odioso aos deuses imortais.

Referências bibliográficas
CRANE, G. (ed.). Perseus Digital Library. Data: abril de 1998.
EVELYN-WHITE, H.G. Hesiod, Homeric Hymns, Epic Cycle, Homerica. London: Harvard University Press, 1936.
ROCHA PEREIRA, M.H. Estudos de História da Cultura Clássica I. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 7ª ed., 1993.
SERVI, K. Greek Mythology. Athens: Ekdotike Athenon, 1998.
TORRANO, J.A.A. Hesíodo, Teogonia: a origem dos deuses. São Paulo: Iluminuras, 1991.

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